Diabetes ainda provoca cinco amputações por dia
Francisco Carvalho, de 62 anos, perdeu o pé, tal como o pai (Daniel Rocha)
Só mesmo no dia em que tiveram que amputar o pé é que disseram ao seu pai que era diabético e bastou um mês para morrer com uma infecção; já Francisco Carvalho soube que sofria da mesma doença do pai, “por acaso”, num internamento que se seguiu a um acidente de automóvel, mas nunca nenhum médico lhe disse para ter cuidados especiais; nove anos depois do diagnóstico também teve que ser amputado.
É uma história com cerca de 30 anos de diferença, a do pai passou-se no Alentejo, a do filho em Lisboa, há cinco anos. Segundo o estudo da Entidade Reguladora da Saúde (ERS) sobre Cuidados de saúde a portadores de diabetes mellitus, a que o PÚBLICO teve acesso, a doença ainda provoca cerca de cinco amputações por dia. A doença está, aliás, na origem de 60 por cento das amputações por causas não traumáticas em Portugal.
Se tivesse que repartir a culpa do mal que lhe mudou a vida e o afastou da vida activa aos 57 anos, Francisco Carvalho apontaria para “50/50″: “Metade para os médicos, metade para mim. Devia ter chamado mais a atenção aos médicos.” Mas a verdade é que quando saiu do hospital com o diagnóstico disseram-lhe apenas para tomar dois comprimidos por dia. Nunca ninguém lhe explicou que aquela é uma doença que envolve vigilância, que é preciso ter muita atenção aos pés, logo ele que passava a maior parte dos seus dias em cima deles, no restaurante que geria. Descobriu tarde de mais quando, já numa cama de hospital, lhe deram a escolher: “Ou me cortavam a perna ou não tinha possibilidade de sobreviver”. O doente do lado recusou a amputação e Francisco viu-o morrer. Em 2009, morreram 4063 doentes diabéticos em Portugal. O Observatório Nacional de Diabetes aponta para 980 mil pessoas com diabetes no país, 44 por cento das quais não estão diagnosticadas.
Hoje com 62 anos, Francisco tinha uma médica de família, que o via e lhe pedia exames de rotina, como o?da próstata. “Mas nunca falámos so-?bre diabetes e eu nunca perguntei nada”, diz. Segundo o estudo da ERS,?pouco mais de um quarto dos centros de saúde oferece consultas específicas de pé diabético – uma das mais graves complicações da diabetes mellitus (DM), a diabetes do tipo 2 (doentes não insulinodependentes), dado o elevado risco de amputação dos membros inferiores. E apenas um terço dos hospitais tem consultas deste tipo. Resultado: o número “aproxima-se dos dois mil” em cada ano, lê-se no relatório. Cerca de cinco amputações por dia, portanto. “Podemos melhorar bastante, com maior prevenção e maior precocidade no diagnóstico e tratamento, mas [o número de casos] nunca vai ser zero”, sublinha, a propósito, Eurico Castro Alves, do Conselho Directivo da ERS.
Quanto às consultas específicas?de podologia, menos de 10 por cento dos centros de saúde e só um quinto dos hospitais disponibilizam este tipo de atendimento. Na Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal, onde Francisco agora recebe cuidados de podologia, faz tudo para manter o outro pé são: de dois em dois meses efectua análises, sabe que tem que lavar os pés com água fria a grande pressão para activar a circulação, hidrata-os – alguns dos cuidados que poderiam ter evitado a amputação.
Mas as lacunas detectadas pela ERS não se ficam por aqui. O estudo permitiu perceber que mais de dois terços dos centros de saúde não têm consulta de nutrição e que cerca de metade dos doentes com diabetes não são encaminhados para consultas deste tipo. E há mesmo agrupamentos de centros de saúde (ACES) sem qualquer nutricionista colocado. “A falta de resposta nesta área, face a uma doença crónica como a DM, torna-se dramática quando se sabe o peso que os cuidados alimentares impõem neste grupo de doentes”, refere o relatório.
Mas o principal problema, no entender de Eurico Alves, é o facto de, apesar de estar a ser “percorrido o ca-?minho certo”, o acesso a cuidados?multidisciplinares ainda não ser homogéneo em todo o território. No atendimento específico a doentes diabéticos, por exemplo, os ACES das zonas de Lisboa e Vale do Tejo e do Alentejo estão abaixo da média nacional.
Outro problema detectado: devido à falta de médicos de família, um elevado número de doentes não é, durante largos períodos, avaliado clínica e laboratorialmente. Nos hospitais, é destacada a necessidade de melhorar a vigilância da retinopatia diabética, outra complicação da DM que pode conduzir à cegueira.
Fonte: Público





















